A necessidade de uma nova atenção para os casos de chikungunya marcou o encontro “Manejo Clínico de Casos Graves de Chikungunya”, realizado no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD), integrante da Rede HU Brasil. Promovido em parceria com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o evento reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir manifestações graves da doença, que vêm exigindo resposta rápida das equipes de saúde e suporte intensivo a pacientes críticos.
Durante o debate, especialistas destacaram que a chikungunya, historicamente associada a sintomas reumatológicos, tem apresentado quadros clínicos mais severos, incluindo colapso circulatório, desidratação intensa, alterações metabólicas e comprometimentos neurológicos e respiratórios.
Doença exige nova atenção das equipes de saúde
A infectologista do HU-UFGD/HU Brasil, Andyane Freitas Tetila, destacou que os casos graves têm mostrado um comportamento mais sistêmico da chikungunya, diferente da percepção historicamente associada apenas às dores articulares prolongadas.
“Historicamente, a chikungunya ficou muito marcada pelas dores articulares intensas e prolongadas, mas os casos graves têm mostrado um comportamento muito mais sistêmico da doença. Hoje observamos pacientes evoluindo com comprometimento neurológico, cardiovascular, respiratório e renal, além de quadros inflamatórios importantes e descompensação de doenças crônicas”, explicou.
Segundo a médica, a infecção tem levado pacientes à necessidade de internação hospitalar e até suporte intensivo. “Também chama atenção o aumento de casos com insuficiência respiratória, choque, mostrando que o vírus pode desencadear uma resposta inflamatória muito mais agressiva do que se imaginava anteriormente”, afirmou.
Andyane ressaltou ainda que a doença passa a demandar atenção intensiva quando há aumento de internações, necessidade de cuidados em UTI e ocorrência de óbitos relacionados à doença. “A chikungunya não deve mais ser vista apenas como uma arbovirose associada à dor articular, mas como uma doença potencialmente grave, que exige vigilância clínica, diagnóstico precoce e capacidade de resposta hospitalar”, enfatizou.
Experiências clínicas e manejo de pacientes graves
O encontro realizado no último dia 8 de maio, no auditório do HU-UFGD/HU Brasil, contou com a participação da médica infectologista Ho Yeh Li, coordenadora da UTI de Infectologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e referência nacional no manejo de doenças infecciosas emergentes; e o infectologista Rafael Galliez, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), médico intensivista e pesquisador com atuação em vigilância epidemiológica e emergências em saúde pública. A presença dos especialistas contribuiu para o aprofundamento técnico das discussões sobre assistência a pacientes graves e estratégias de enfrentamento às arboviroses.
A roda de conversa foi conduzida pela infectologista do HU-UFGD, Andyane Freitas Tetila, e contou ainda com participação remota de integrantes da Força Nacional do SUS (FN-SUS). Entre os principais pontos discutidos esteve a necessidade de reconhecimento precoce das manifestações consideradas “hiperagudas” da doença.
O médico Pedro Carvalho, chefe da Divisão Médica do HU-Univasf/HU Brasil, relatou experiências vivenciadas durante a assistência a populações indígenas em Dourados (MS), como voluntário da FN-SUS. Segundo ele, pacientes apresentaram quadros de gravidade inesperada, incluindo choque circulatório, desidratação severa e descompensações metabólicas, como cetoacidose diabética.
Os desafios do atendimento pediátrico também fizeram parte das discussões. A médica intensivista pediátrica do HU-UFGD, Nancy Karol Giummarresi Torres, apresentou casos críticos envolvendo lactentes e crianças com comprometimento respiratório e necessidade de suporte avançado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
As discussões também abordaram a importância da hidratação venosa rigorosa, as especificidades do cuidado em populações indígenas, considerando determinantes sociais e barreiras culturais, e a necessidade de ampliação dos estudos sobre manifestações extrarticulares da doença.
Papel do HU-UFGD no enfrentamento à doença
O encontro contou ainda com a presença do superintendente do HU-UFGD, médico intensivista Hermeto Paschoalick. Segundo ele, a experiência vivenciada pelas equipes hospitalares durante a epidemia evidenciou que a Chikungunya pode evoluir para quadros graves de formas variadas e nem sempre com uma apresentação clínica clássica. “Isso a difere da dengue, por exemplo. Na chikungunya parece ser mais difícil identificar sinais de alarme específicos da doença, e o tratamento precisa ser muito mais individualizado”, explicou.
O superintendente destacou ainda a importância de o hospital universitário promover espaços de discussão e articulação técnica para qualificar a resposta assistencial na região. “Enquanto hospital de ensino e parte importante da rede de atenção à saúde da região, temos atuado em conjunto com secretarias municipal e estadual e com o Ministério da Saúde em avaliações e pesquisas para entender melhor a doença e procurar opções de tratamento adequadas, especialmente dos casos mais graves que necessitam de internação. Participar das pesquisas e receber os/as maiores especialistas do Brasil tem nos ajudado a cuidar melhor das pessoas infectadas pelo vírus”, afirmou.